Num triângulo de Ilhas, uma lenda de Açores. De rosto humano!

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Dou comigo a recordar aquele mestre do Terra Alta que - numa travessia das Velas para São Roque, já lá vão mais de 25 anos - me contava do Sr. Quaresma, de braço no ar, em cima do velho cais da Madalena.
Em dias de temporal, contando as ondas... para marcar o momento seguro de entrada do barco.

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Naquele triângulo de ilhas, o barco era tudo: Viu nascer as crianças (mais impacientes!) que não aguardaram até ao hospital da ilha em frente... foi viatura de funeral ou ambulância.
Muitas histórias de amor se teceram à distância, vertidas nas cartas confiadas a João Quaresma para que as encaminhasse para os amores ausentes.
Ou os açafates da comida e as encomendas que os pais mandavam para os miúdos da Ilha Montanha que tinham ido estudar para a Horta. Do lado de lá. o Gilberto das Lanchas, com a sua carrocinha, havia de tratar das entregas em mão.

Não havia lancha que arriscasse demandar o porto da Madalena sem ordem de João Quaresma. Todos os dias em cima do cai…

E quando os ciganos de Belmonte deram uma burra lindíssima a Mário Soares?

Para mim, que durante mais de 20 anos da radio fiz a estrada (ou terei feito a estrada da rádio?), os encontros com Mário Soares foram acontecendo por aí, em qualquer canto de país...
A memória vêm alguma recordações que, não sendo importantes para mais ninguém, fazem parte das minha história pessoal.

Lembro-me que, no dia da votação que dele fez Presidente da República, era o encerramento da FILMODA - no antigo recinto da Feira Internacional de Lisboa na Junqueira.
A feira tinha andado sempre inundada daqueles sobretudos verdes que se haviam convertido numa espécie de autocolante caro da campanha de Freitas do Amaral. Começaram a aparecer os primeiros resultados e depressa se percebeu quem ia ser o vencedor. Como por milagre, num ápice, aquelas peças de vestuário que eram emblema de campanha desapareceram todas. Ainda hoje me interrogo como terá sido isso possível de um momento para o outro.

O milagre do vinho


Eleito Presidente da República em Fevereiro de 1986, tomou posse a 10 de Março. E só em Maio nomeou Helena Roseta como responsável pelas comemorações do Dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas.
Évora surgiu como quase único cenário possível do 10 de Junho. Não que Soares, ao contrário das insinuações maldosas, precisasse de pagar os votos comunistas que trouxeram o volte-face dos resultados. Mas apenas... porque já não havia tempo para preparar um adequado programa das comemorações. E a cidade alentejana tinha tudo o que poderia ser necessário para as celebrações: Desde a incondicional cooperação de Abílio Fernandes (o edil local) às obras de João Cutileiro (então escultor residente na cidade eborense), aos trabalhos de Túlio Espanca e à actividade intensa do Centro Dramático de Évora. A isto somava-se a força e o espectáculo dos corais alentejanos. De fora quase só foram necessários os Heróis do Mar para o concerto na Praça do Giraldo...!

Em relação aos banquetes e outras celebrações de mesa, bastaria a riqueza da cozinha alentejana e a batuta do Manuel Fialho.
Não foram as confusões inventadas pelo Protocolo de Estado...

No almoço do 10 de Junho, nos jardins do Palácio Dom Manuel, convidados recebidos com um verdadeiro festival de comedorias do Alentejo.

Mas, olhando com mais atenção, vejo que não havia vinho. E isto de comer cabeça de xara ou queijo de ovelha com sumo de tomate... Não dá!

Manel, o vinho? - perguntei. Não há, respondeu o mestre gastrónomo alentejano. E vendo a minha cara de espanto, foi explicando: Ordens do protocolo de Estado, dizem que está muito calor e que é só com sumos.
A pensar em mil coisas como sempre, Soares nem tinha reparado. Até que ouviu a mesma interrogação da boca do embaixador de Itália. Sem conter o espanto, de imediato questionou Manuel Fialho que lhe deu a mesmíssima resposta que antes me concedera. O Presidente, num claro esforço de contenção para não dizer o que todos perceberam que apetecia, limitou-se a um Invente vinho!

Daí a uns minutos começaram a chegar garrafas de belíssimos néctares do Alentejo. Curioso, perguntei: Manel onde é que foste buscar o vinho? Cala-te - respondeu - estão a beber o vinho do banquete do jantar. Agora tenho quatro horas para conseguir vinho para a noite.

A burra foi para o colégio!


Inesquecível o 10 de Junho na Covilhã e a Presidência Aberta naquelas terras da Beira Interior. Fala-se muito do estilo do actual ocupante do Palácio de Belém. Mas Soares era impagável e bem liberto nos contactos com o povo. Não tinham era ainda sido inventados os telemóveis que servem para fazer fotografias, nem ninguém sonhava com selfies...!
Tão liberto que dizia de imediato o que estava a pensar. Às vezes saiam gafes. Que, na boca dele, eram momentos do mais puro humor.

Recordo uma, em Belmonte, a propósito da oferta que a comunidade local da etnia cigana lhe preparou.
Queriam dar ao presidente o seu bem mais precioso. E lá veio uma burra! Lindíssima, muito jovem, com uma franjinha... Um espanto!

Minutos antes, estavam os jornalistas à conversa com Mário Soares e ouviu-se a pergunta do Batista Bastos: Presidente, o que é que vai fazer à burra?

Soares, sem pensar na forma como as suas palavras podiam ser interpretadas, saiu-se com um imediato "bem... a burra vai para o colégio".
E, vendo as nossas caras, emendou a mão: não é que a burra tenha de aprender nada, é só para as minhas netas brincarem!. Claro que falava no Colégio Moderno...

O bom e o bonito foi quando, em plena cerimónia, chegou - de charrete e chapéu à Dallas - o filho do chefe da comunidade cigana. No momento seguinte, com os seu séquito, já içava a burra para cima do palanque presidencial e proclamava de forma bem sonora: Vimos aqui para ofereceri esta burra ao Senhor Presidenti Soares da República.
Não houve protocolo que resistisse - as danças ciganas tinham tomado conta do palco e a cerimónia ficou-se por ali, entre agradecimentos e sorrisos.

* * * * *

Foram tantos os momentos de registar e sublinhar (verdadeiro teste aos nervos do Carneiro Jacinto) que deixo algumas das histórias para outra ocasião.
Apeteceu apenas sublinhar que o "Soares é fixe", frequentemente gritado, tinha muito a ver com a forma calorosa e espontânea como ele se relacionava com as multidões, entre os beijos das criancinhas e os abraços das velhas...
Um estilo que a sensibilidade e timidez de Sampaio ou a rigidez de Cavaco nunca permitiriam. Marcelo anda por lá. Mais foto, menos foto!

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