Num triângulo de Ilhas, uma lenda de Açores. De rosto humano!

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Dou comigo a recordar aquele mestre do Terra Alta que - numa travessia das Velas para São Roque, já lá vão mais de 25 anos - me contava do Sr. Quaresma, de braço no ar, em cima do velho cais da Madalena.
Em dias de temporal, contando as ondas... para marcar o momento seguro de entrada do barco.

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Naquele triângulo de ilhas, o barco era tudo: Viu nascer as crianças (mais impacientes!) que não aguardaram até ao hospital da ilha em frente... foi viatura de funeral ou ambulância.
Muitas histórias de amor se teceram à distância, vertidas nas cartas confiadas a João Quaresma para que as encaminhasse para os amores ausentes.
Ou os açafates da comida e as encomendas que os pais mandavam para os miúdos da Ilha Montanha que tinham ido estudar para a Horta. Do lado de lá. o Gilberto das Lanchas, com a sua carrocinha, havia de tratar das entregas em mão.

Não havia lancha que arriscasse demandar o porto da Madalena sem ordem de João Quaresma. Todos os dias em cima do cai…

Às cavalitas do pai... para a Feira da Luz!

Há imagens que nunca nos abandonam:
Um sorriso de mãe, as cavalitas do pai, as manhãs de domingo no Jardim do Campo Grande, a ida de eléctrico à Baixa para o Circo de Natal no Coliseu, a Feira Popular (ainda em Palhavã? Sou mesmo velho!),  a praia aos magotes de brincadeiras e miudagem em Santo Amaro de Oeiras...

E, claro, a Feira da Luz!
 

Nos finais dos anos 50, as Festas da Senhora da Luz eram a quase a única romaria que sobrevivia em Lisboa. Com o lúdico a sobrepor-se à procissão e aquelas barraquinhas que tinham de tudo... Dos tachos e panelas aos barros, rifas, facas e navalhas.

Havia quem lesse a sina, não faltavam os espectáculos de Robertos ou o cego que cantava crimes e escândalos da semana... Aproveitando para vender, em grandes folhas volantes, letras e imagens a propósito. Nessa altura ainda não tinha chegado o jornalismo alcoviteiro e alguém tinha de desempenhar esse papel!
Quase como os vendedores de banha de cobra com as suas poções milagrosas para as mais variadas maleitas - verdadeiros percursores de algumas rubricas dos programas televisivos de hoje em dia.

No recinto da feira, abundavam os mostruários de roupa de vestir ou de pôr na cama e sempre andaram por lá os comerciantes de ouro e bugigangas.
As barracas de comes e bebes podiam ser tentação para os mais velhos. Mas a miudagem só tinha olhos, desejos e birras para carrosséis e farturas!

Há cheiros que ficam para sempre gravados na memória. Como os do polvo,  naqueles assadores feitos de bidões serrados alimentados a carvão. Não havia mesmo ida à feira que dispensasse tal pitéu.

Como nas romarias de aldeia, o caminho para a Feira da Luz era feito a pé e em grupo. Tempos em que ainda não se tinha rasgado a 2ª Circular e o Bairro de Telheiras era coisa inimaginável.

A minha infância foi toda ali para as bandas do Campo Grande. Nesses tempos, a quase única forma de chegar ao Largo da Luz era (ladeando quintas, como a de São Vicente) pela velha Estrada de Telheiras... A pé.

Caminho longo para pernas de 4 ou 5 anos, feito entre magotes de gente a caminho da festa, num bruaá de ditos e, de quando em vez, com uma ou outra música à mistura.
O regresso era bem silencioso e penoso. Valiam, na altura, as tais cavalitas de pai...

É  assim: dei comigo enleado em recordações e saudades numa destas tardes de visita à Feira da Luz. Não há como evitar... a memória, muitas vezes, supera a contemplação e a fruição.
E submerge-nos em rostos e gestos que amámos e nos fizeram.

Se calhar... é também por isso que não dispenso o retorno a esta feira de infância. Embora sabendo que fica sempre como pálida amostra de tudo o que subsiste nas minhas lembranças.


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