Num triângulo de Ilhas, uma lenda de Açores. De rosto humano!

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Dou comigo a recordar aquele mestre do Terra Alta que - numa travessia das Velas para São Roque, já lá vão mais de 25 anos - me contava do Sr. Quaresma, de braço no ar, em cima do velho cais da Madalena.
Em dias de temporal, contando as ondas... para marcar o momento seguro de entrada do barco.

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Naquele triângulo de ilhas, o barco era tudo: Viu nascer as crianças (mais impacientes!) que não aguardaram até ao hospital da ilha em frente... foi viatura de funeral ou ambulância.
Muitas histórias de amor se teceram à distância, vertidas nas cartas confiadas a João Quaresma para que as encaminhasse para os amores ausentes.
Ou os açafates da comida e as encomendas que os pais mandavam para os miúdos da Ilha Montanha que tinham ido estudar para a Horta. Do lado de lá. o Gilberto das Lanchas, com a sua carrocinha, havia de tratar das entregas em mão.

Não havia lancha que arriscasse demandar o porto da Madalena sem ordem de João Quaresma. Todos os dias em cima do cai…

Um banho de sol, numa varanda com vistas do Açor!

Escorrem estas linhas num banho de sol, numa varanda que abre horizontes para a Serra do Açor. O azul do céu é velado aqui ou ali por laivos de nuvens brancas. Logo além, as macieiras, as figueiras, as laranjeiras os prados.

Mais desvanecidas as marcas do incêndio grande de há dois anos. O verde da vegetação foi pintando o negro de que a terra vestira. Ilusória melhoria, com as mimosas a invadirem terrenos onde se albergavam medronheiros, carvalhos, castanheiros, pinheiros... que o incêndio levou naqueles dias de receio e susto para os que ainda habitam esta margem do Alva a que a freguesia foi buscar nome: Penalva de Alva, Oliveira do Hospital.

Agora, um Inverno de seco e uma Primavera que não quase não trouxe água faz ressurgir todos os medos e receios.

Mas a força do renascer da natureza, depois de tempos de desolação, vem carregada de cheiros e sons que desafiam para aventuras de passeio e contemplação.

Apetece centrar vistas na encosta da Serra.


E os olhos trepam faldas e horizontes até às torres eólicas de que bordaram os cumes.

Cá de baixo, quase se conseguem percorrer num relance os caminhos e atalhos que se conhecem bem.

Passar para a outra margem do rio, subir à Aldeia das Dez, estacar de novo no miradouro e reencontrar as distâncias na paisagem.
Sou dos que acreditam que os caminhos servem para levar a algum lado...
E que, percorrê-los, é uma forma de quase ir chegando!

A manhã parece ter sido inventada para passear.
Com cautelas, com calmas e vagares.
Não tarda nada, vão aparecer umas bátegas de água e o sol esfumar-se por detrás de umas nuvens.

Mas o vento acabará por as levar para outras paragens. Depois de deixarem alguma água (pouca!) que tão precisa é...

Límpidas, cristalinas, as águas do Alva.
A merecerem aqueles barbos bem crescidos.
Fotografados cá do alto, da ponte de Penalva...

Quase como nas vossas vidas. Sempre a caminhar e à procura.
Sem olhar a aguaceiros, quase ignorando turbulências ou alterações de temperatura.
Na convicção de que a existência, na sua profundidade e complexidade, está muito para além do imediatamente visível e perceptível.
E por isso vale a pena!
• Fotos: Conceição Coelho

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