Num triângulo de Ilhas, uma lenda de Açores. De rosto humano!

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Dou comigo a recordar aquele mestre do Terra Alta que - numa travessia das Velas para São Roque, já lá vão mais de 25 anos - me contava do Sr. Quaresma, de braço no ar, em cima do velho cais da Madalena.
Em dias de temporal, contando as ondas... para marcar o momento seguro de entrada do barco.

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Naquele triângulo de ilhas, o barco era tudo: Viu nascer as crianças (mais impacientes!) que não aguardaram até ao hospital da ilha em frente... foi viatura de funeral ou ambulância.
Muitas histórias de amor se teceram à distância, vertidas nas cartas confiadas a João Quaresma para que as encaminhasse para os amores ausentes.
Ou os açafates da comida e as encomendas que os pais mandavam para os miúdos da Ilha Montanha que tinham ido estudar para a Horta. Do lado de lá. o Gilberto das Lanchas, com a sua carrocinha, havia de tratar das entregas em mão.

Não havia lancha que arriscasse demandar o porto da Madalena sem ordem de João Quaresma. Todos os dias em cima do cai…

"Porque os outros se compram e se vendem / E os seus gestos dão sempre dividendo"

Sophia de Mello Breyner Andresen
Muitos dos que, nos anos 70, fizeram desta canção coro de protesto e revolta contra a Ditadura não saberiam, nessa altura, que estavam a entoar um poema de Sofia de Mello Breyner.

Francisco Fanhais - aliás Padre Fanhais, como era então reconhecido - chegava com a sua viola e começava a cantar. As vozes presentes haviam de se lhe juntar. E esta era uma das canções que nunca podia faltar!

Os poemas não têm idade. As palavras de Sofia - todas estas décadas depois, com uma queda de Ditadura e a chegada da Democracia pelo meio - continuam perfeitamente actuais e actuantes!.
Claro que agora não há o risco de a Polícia Política desatar a prender cantantes e coro. O que já faz diferença grande...!

  • Integrou o LP "Canções da Cidade Nova", editado em1970


Porque...

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

  • Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Mar Novo", Lisboa: Guimarães Editores, 1958; "Obra Poética II", Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 71)

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