Num triângulo de Ilhas, uma lenda de Açores. De rosto humano!

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Dou comigo a recordar aquele mestre do Terra Alta que - numa travessia das Velas para São Roque, já lá vão mais de 25 anos - me contava do Sr. Quaresma, de braço no ar, em cima do velho cais da Madalena.
Em dias de temporal, contando as ondas... para marcar o momento seguro de entrada do barco.

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Naquele triângulo de ilhas, o barco era tudo: Viu nascer as crianças (mais impacientes!) que não aguardaram até ao hospital da ilha em frente... foi viatura de funeral ou ambulância.
Muitas histórias de amor se teceram à distância, vertidas nas cartas confiadas a João Quaresma para que as encaminhasse para os amores ausentes.
Ou os açafates da comida e as encomendas que os pais mandavam para os miúdos da Ilha Montanha que tinham ido estudar para a Horta. Do lado de lá. o Gilberto das Lanchas, com a sua carrocinha, havia de tratar das entregas em mão.

Não havia lancha que arriscasse demandar o porto da Madalena sem ordem de João Quaresma. Todos os dias em cima do cai…

Que semelhanças? Antónia (sandes ao balcão) / Frederico (restaurante de luxo)

Antónia, chamemos-lhe assim, aproveita a hora de almoço para comer qualquer coisa no café próximo do escritório onde é telefonista. Vai ser o costume: um copo de leite e uma sandes. Para rematar, a sopa do dia. Em pé, naquela espécie de balcão encostado à parede. Aguarda que haja um lugar e leva o tabuleiro com as suas coisas.

• O motorista de Frederico pára o carro à porta do restaurante e abre-lhe a porta. Ele sai, é cumprimentado pelo porteiro e conduzido à mesa que a secretária atempadamente tinha reservado . Escolhe o aperitivo e vai bebericando enquanto o seu convidado de almoço não chega. Depois será o ritual da ementa, a amostragem dos peixes frescos e a escolha dos pratos.

Pelo direito ao bom gosto...
Ao luxo, o que é do luxo!
Entre os almoços de Antónia e de Frederico, a semelhança está no IVA das facturas.
Antónia vai pagar Taxa igual, por aquela refeição apressada comida em pé, à suportada por Frederico no restaurante que escolheu para tratar dos negócios.

Proporcionalidade fiscal tem pouco a ver com justiça social. E a descriminação positiva, que deveria funcionar a favor dos mais frágeis, não existe: As incidência, percentagens e modos de taxação revelam-se sempre iníquos, mesmo disfarçados de proporcionais. Cada vez mais vozes defendem incidência maior sobre bens de luxo no esforço contribuitivo dos cidadãos.
Risco que Antónia não corre. Nem ela nem os milhões de outros que, das virtualidades gourmet, só suspeitarão fachadas de restaurantes e destaques de televisões. Que, na ânsia de armar ao pingarelho, vão tecendo loas a exotismos que a grande maioria nunca sonhará. Mas vai espreitando imagens e alimentando a imaginação!

* * * * *
Como é bom de ver, ninguém por aqui se manifesta contra a existência de qualquer tipo de restaurante sejam quais forem os seus desvairados preços. O direito de escolha dos cidadãos (para aqueles que o podem exercer) é um bem cívico insubstituível. Depois, há o turismo e o emprego a exigirem saúde próspera dos estabelecimentos de comedorias e de alguns (bem menos!) santuários gastronómicos. Como em tudo, nada que o bom senso e o bom gosto não resolvam e compatibilizem.

Ainda assim, parece de profunda injustiça que luxo e subsistência sejam encarados de forma igual. E que Antónia e Frederico tenham o mesmo tratamento em sede de IVA.
Que agora desceu. Antónia não deu por isso. Se ao menos aproveitassem para dar trabalho a tanto desempregado que por aí anda, pensa ela.
Cá para nós... parece-nos que vai ter de esperar bem sentadinha!

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